Hasbro e a morte de Optimus Prime em 1986: o erro que virou lenda
A Hasbro decidiu matar Optimus Prime em 1986 para renovar a linha de brinquedos. A reação das crianças nos cinemas e as cartas dos pais forçaram a empresa a ressuscitar o personagem em 1987.
Veredito baseado em teste completo, sem código de fornecedor pesar na nota.
Em 1986, a Hasbro decidiu matar Optimus Prime no cinema para renovar a linha de brinquedos. A empresa não sabia que o personagem era um ícone infantil. Diante de crianças chorando nas sessões e cartas de pais, ressuscitou o líder dos Autobots em fevereiro de 1987.
O filme tinha uma orientação específica: renovar o elenco para abrir espaço para a nova linha de bonecos. Flint Dille, consultor de roteiro, explicou isso anos depois em reportagem do The Hollywood Reporter. Segundo ele, a equipe não sabia que o Optimus era um ícone infantil; achava que estava apenas retirando uma figura popular para substituí-la por outra nova. O roteirista Ron Friedman se opôs veementemente e afirmou que tirar o Optimus Prime era como tirar o pai da família Transformers, e que isso não ia dar certo.
Não deu certo. Dille lembrava que as crianças choravam nas salas de cinema, que havia pessoas saindo da sessão e que começaram a chegar cartas bastante desagradáveis dos pais. Aquele desastre emocional teve consequências imediatas e mensuráveis.
O incentivo financeiro por trás da morte de Optimus Prime
A lógica era simples: sem renovação, não havia novos brinquedos. A franquia nasceu justamente de uma operação de compra. Na Feira de Brinquedos de Tóquio de 1983, a Hasbro adquiriu os direitos ocidentais de duas linhas japonesas da Takara, a Diaclone e a Micro Change, uniu as duas e criou uma marca nova. Retirou os pilotos humanos, transformou os robôs em seres vivos com facções e rivalidades, e chamou a Marvel para dar contexto narrativo. Jim Shooter escreveu o esboço geral; Dennis O'Neil deu nome ao Optimus Prime; Bob Budiansky escreveu as biografias personagem por personagem.
O desenho estreou em 17 de setembro de 1984 com a minissérie de três episódios More Than Meets the Eye, produzida pela Sunbow e pela Marvel Productions, animada no Japão pela Toei, com apoio posterior do estúdio coreano AKOM. Durou quatro temporadas e 98 episódios até novembro de 1987. A série existia para vender brinquedos, e isso só foi possível porque, no início dos anos 80, o governo Reagan flexibilizou o controle regulatório sobre a publicidade infantil na televisão. He-Man abriu caminho em 1983; Transformers e G.I. Joe vieram em seguida.
O filme de 1986 custou seis milhões de dólares e arrecadou menos nos Estados Unidos. Foi um fracasso de bilheteria, apesar de contar com Orson Welles em seu último papel como Unicron, Leonard Nimoy como Galvotron e trilha sonora de Vince DiCola com o hit The Touch, de Stan Bush.
O recuo da Hasbro e o que isso significa para o fã
Diante do drama infantil, a Sunbow pensou duas vezes antes de seguir com G.I. Joe no ano seguinte e poupou a vida de Duke no último momento, transformando sua morte em um coma providencial. O recuo mostra o quanto a Hasbro ficou assustada com a reação do público.
Para quem acompanha a indústria, o episódio ilustra um incentivo que continua atual: a decisão de matar um personagem raramente é criativa, é comercial. O problema é que a planilha não mede vínculo afetivo. A Hasbro aprendeu, com cartas de pais e salas de cinema em prantos, que o Optimus Prime não era um SKU a ser substituído. Era o pai da família Transformers.